Por que você gosta de quem não gosta de você?

*Por Frederico Mattos

Você já ouviu alguém lhe confessar? “Eu gosto de fulano, mas ele não gosta mim, e aquele outro que gosta de mim eu não gosto!” Eu ouço isso o tempo todo na consultório.

Dormindo com o inimigo

E durante anos esse assunto me intrigou “por que presamos quem nos despreza e desprezamos quem nos presa”.

Durante um atendimento nessa semana consegui formular melhor meus pensamentos. Vou tentar colocar essas idéias que venho elaborando há anos…

Noto que desejamos ser amados e importantes para alguém. Isso é até obvio. Mas porque exatamente no momento que somos amados algo dentro de nós nos paralisa? E por que gostamos de alguém no exato momento em que nos sentimos rejeitados e isso até intensifica o desejo?

Bem, vamos por parte.

Esse sentimento de amor interrompido é vivido pela primeira vez na relação com os pais. É o primeiro amor proibido e que nos é negado pela cultura, não podemos concretizar nossa intenção amorosa com os pais. A não ser no plano da idealização.

Essa relação passa a configurar o primeiro triângulo amoroso da nossa vida. Aquele quem eu desejo não me deseja. A primeira desilusão amorosa e dor sentimental fica registrada em meu inconsciente.

Em nossas peregrinações amorosas buscamos outra possibilidade de amor. Mas já carregamos essa primeira ferida.

Em torno da dor criamos barreiras e medos que nos assombram a cada vez que nos sentimos envolvidos pelo amor.

Quando notamos alguém que nos ama aquele sinal de alerta inconsciente dispara “CUIDADO, você va se machucar, não se prenda a ninguém”.

Esse temor de viver uma história concreta e não idealizada de amor nos congela a alma. Pois nos confere responsabilidade (“tu te torna eternamente responsável por aquele que cativas”) e esse sentimento nos apavora. O de não sermos bons o suficientes para preencher o amor dos outros. Diante do amor alheio nossa criança ferida recua e teme viver uma intimidade, o apego e a possibilidade do fracasso, rejieção e abandono.

Já a posição de rejeitado é confortável, pois ficamos num eterno embate com um rival inimigo. Essa raiva misturada com desprezo nos coloca num vitimismo queixoso e paralisante. Ficamos estagnados no tempo e espaço à espera daquela pessoa amada. Perdemos a responsabilidade pela nossa vida e ficamos à mercê de outra pessoa. Dependo dela para ser feliz e não mais de mim.

Do contrário, ser amado me confere uma responsabilidade para com o sentimento alheio que talvez não me sinto preparado. A realidade é sempre desconfortável se comparada com a idealização. E diante da realidade de alguém que me ama também sou colocado diante de meu ressentimento do passado, a sombra irrompe e diz: “Agora seria um bom momento para fazer essa pessoa experimentar um pouco do que eu sofri”.

Nessa hora surge o nosso sentimento de desprezo pelo outro, achamos as demonstrações de afeto da pessoa bobas e melosas. O amor dela nos parece tolo e infantil e assumimos a posição dos nossos pais que nos proibiram o amor.

Por isso que quando alguém que desprezávamos desiste e segue em outra direção passamos a valorizar aquela demonstração do passado, pois daí passamos à condição de vítima e já não somos mais responsáveis por corresponder à altura do sentimento alheio.

Amar e ser rejeitado me coloca diante da raiva passiva.

Ser amado me coloca diante da responsabilidade de uma realidade de amor.

E disso dependeria minha felicidade.

Mas no fundo preferimos a fantasia à realidade. A rejeição vitimizada ao amor maduro. Preferimos a infância à vida adulta.

Amar me faz poderoso, ser amado me torna vulnerável. Dar me confere força moral, receber me expõe aos medos e inseguranças.

Por isso é mais fácil amar do que ser amado!

Se minha explicação ficou confusa, por favor perguntem pois quando brota algo assim prefiro escrever…

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Captura de Tela 2014-08-26 às 10.05.17* Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor dos livros Relacionamento para leigos (série For Dummies)[clique], Como se libertar do ex [clique aqui para comprar] e Mães que amam demais. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva um bonsai, lava pratos e se aconchega nos braços do seu amor, Juliana. Oferece treinamentos online de “Como salvar seu relacionamento” e “Como decifrar pessoas” No Youtube seu canal é o SOBRE A VIDA [clique aqui] No twitter é @fredmattos e no instagram http://instagram.com/fredmattos – Frederico A. S. O. Mattos CRP 06/77094

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Sonhador nato, psicólogo provocador, apaixonado convicto, escritor de "Como se libertar do ex" e empresário. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas medita, faz dança de salão e lava pratos.

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  • Rita

    Boa noite Frederico, texto bastante consfuso e olha que estou acostumada a ler os seus textos. rs

    Achei muito estranho, pois não consegui concordar com algumas colocações, mas acredito ter sido falta de entendimento da minha parte.

    Quando você diz: “Já a posição de rejeitado é confortável, pois ficamos num eterno embate com um rival inimigo….”.

    O que é sentir-se confortável?

    Eu fui rejeitada e posso dizer com todas as palavras que não é nada confortável, pelo contrário, a sensação é agoniante, angustiante, muito ruim. Para mim confortável tem um outro significado.
    Também não me senti vítima, pois tenho total responsabilidade pelos meus atos e no meu caso eu decidi correr o risco e dizer Eu te amo, mesmo sabendo da insegurança e preconceito do homem envolvido nesta história. Por esse motivo não consigo sentir raiva, pois acredito a vida é feita de escolhas e que realmente somos responsáveis por tudo que fazemos.

    Daí vem mais um questionamento: o que é raiva passiva?

    Esse parágrafo: Amar me faz poderoso, ser amado me torna vulnerável. Dar me confere força moral, receber me expõe aos medos e inseguranças. Me explica melhor, pois eu amei e me senti poderosa, plena e totalmente vulnerável. Ao mesmo tempo que senti essa força moral, também tive contato com os meu medos e inseguranças. Não consegui diferenciar amar , de ser amado com as características apontadas.

    A frase Por isso é mais fácil amar do que ser amado! – essa eu não entendi mesmo… pois para mim foi tão difícil aceitar que estava amando, foi uma briga interna e dizer EU TE AMO pela 1ª vez, foi um dos atos mais difíceis da minha vida.

    Agora eu adotei o lema “Tudo que você resiste, persiste” e estou doando meu amor, para a vida e tudo o que ela tem de bom para me oferecer.

    Fiquei com dúvidas também com relação ao desprezo e sentimento de vingança.

    Se você puder me explicar melhor eu te agradeço, senão terei que fazer uma sessão de terapia só para entender o seu texto e linkar com o que aconteceu comigo. Desculpe-me o tamanho do questinamento, tentei ser o mais clara possível.

    Obrigada

    • Vamos lá! Realmente esse texto foi uma corrente de pensamentos embrionários, vou lapidar a ideia com o tempo!

      [Quando você diz: “Já a posição de rejeitado é confortável, pois ficamos num eterno embate com um rival inimigo….”. O que é sentir-se confortável?]

      Digo confortável quando o psiquismo encontra um lugar conhecido, ainda que desagradável. O amor coloca a pessoa diante de mil ambiguidades e paradoxos… Por isso é mais trabalhoso.

      [Amar me faz poderoso, ser amado me torna vulnerável. Dar me confere força moral, receber me expõe aos medos e inseguranças. ]

      A vulnerabilidade da vítima rejeita é diferente da vulnerabilidade do Amor. A primeira é passiva, ressentida, a segunda é desconcertante.

      [Por isso é mais fácil amar do que ser amado! ]

      Amar (sento rejeitado) é mais fácil do que ser amado (que implica uma responsabilidade e instiga à entrega)! Entendeu?

      É ótimo que esteja doando seu amor, é essencial!

      Fique tranquila, está no caminho certo!
      bjs

      Quer dizer,

      • ju

        nao concordo com mt com esse pensamento freudiano do inicio. e também, existe o ‘damos valor quando perdemos’ por alguns desses fatores. mas e aquelas pessoas que queriam amar quem ama elas, mas do contrario de amar so depois que perdem, mas só gostam de quem nao gosta delas? da idelizacao, do sofrimento ,parece que nasceram p sofrer, só se envolvem qnd tem desafio, qnd conseguem perde a graça elas desencantam ??? esse gostar loucamente de quem esta meio fora do alcance, ao vez de alguem que tem todo amor pra dar…e elas tentam, mas nao conseguem se apaixonar.

        • blogsobreavida

          As vezes aquilo que se considerava paixão era só inveja… Quando a inveja é cumprida e a pessoa conquistada, perde-se o interesse, por isso se diz que acabou o desafio…

          • Lu

            Concordo totalmente com este texto, é exatamente isso que penso sobre as pessoas e os relacionamentos e por isso é tão dificil. Porém, me pergunto, como então manter alguém interessado?
            Normalmente a pessoa fica interessada enquanto tudo é novidade, quando ainda nao sabe se conquistou a outra pessoa. Acontece que nao dá para ficar para sempre assim, uma hora os sentimentos começam a transparecer. Aí, quando a pessoa percebe que gostamos dela, sente que nos “conquistou” e perde a graça. Como manter este interesse???

      • Sheila

        Nossa realmente é isso mesmo :), achei que estava apx, mais ele mesmo me fez reconhecer que não passa disso. Passar a responsabilidade do fracasso adiante é mais fácil! Fazemos isso o tempo todo!!!!
        bj

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  • Silvio

    ótimo texto.então ,passei isso a pouco tempo.e o mais interessante é que já conheci muitas mulheres,tentando sempre algo duradouro,mas é só fogo de palha e me afasto depois de uns 2 encontros.porem conheci uma garota e me encantei com ela,ela percebeu e por algum motivo não rolou por parte dela.que loucura isso.totalmente desacreditado…

  • Alessandra Apio

    Ok, mas e a solução? Como saímos desse ciclo vicioso? Porque só saber disso não é o suficiente.

    • Bruno Torres Boeger

      Aceite que vai doer e ponto. Isto faz parte da vida.

      • Alessandra Apio

        Escrevi isso há um ano, e já mudei ahajahah já sai disso

        • Amanda Nogueira

          me ajudaaaaa!!!!!!

  • Iris Diniz

    Amei a sua conclusão sobre o assunto. Obrigada pelo texto.

  • Fabiana Soares

    Preciso aprender a não amar tanto, sou dessa melosas que demonstra demais os sentimentos, como posso mudar minha natureza? Sou assim com todos, amigos, família, namorado…. Alguém me ajuda pfvr.

    • Vanderlei

      Sou assim também é só me machuco, vejo várias mulheres reclamando de homens, que não prestam procuro fazer tudo ao contrário, ser romântico, atencioso, carinhoso com algumas que me apaixono, simplesmente do nada vão embora. Vai entender será que é melhor desprezar, ou ser muito apegado? Quando desprezo não vão embora.

    • Bruno Torres Boeger

      Mudar sua natureza quer dizer que você tbm vai deixar de vivenciar a parte boa dela.
      É isso que você quer?

      Viver dói. Mas a gente da conta. Basta sempre cuidar bem de você mesma.

    • Calisto

      Não muda nao, eu não consigo mostrar sentimentos, eu quero muito mas algo em mim me bloqueia. Te invejo, te aconselho a não mudar isso!!

  • Jonatas Pereira

    Não concordo, e no caso de eu não achar a pessoa bonita, nem interessante, nem consigo ver qualidades nessa pessoa, que ainda por cima, não tem nada haver comigo em hábitos e nem em pensamentos. Parece que com sua explicação, somos obrigados amar alguem só pelo motivo dessa pessoa, alimentar algum sentimento pela gente, mesmo que não possamos dar o que ela busca, pois não sentimos o mesmo. Então eu devo me relacionar com essas pessoas, por quem não sinto absolutamente nada, só por que ela sente algo???

    • Brenda Prinsk

      Eu entendo perfeitamente

  • era melhor ter pedido pra escrever o post no lugar do Dr.
    mas qto aos comentarios, foi o unico q falou falou mas acabou falando de si proprio..eis aí a sua propria vontade de ser amado mas inconscientemente inconformado pela ideia de q odeia os pais pela rejeição amorosa q teve por eles..eu nao concordo com tudo o q Freud trouxe, mas como pioneiro trouxe revelações que até hj nós não queremos admitir e no entanto é a verdade.

  • Calisto

    Caralho me identifiquei muito de verdade, achei que só eu pensava nessa tese.

  • Lwma

    Nossa é exatamento isso q eu sinto com as pessoas q gosto. Quando eu gosto de alguém, eu costumo sofrer muito e me doar muito, viver com aquela intensidade q pode até parecer drama. As vezes acho q crio mt coisa na minha cabeça. Então do nada, sou correspondida. E agora? Eu quis tanto. Agora eu tenho. E agora? Isso já aconteceu antes, eu perdi o interesse. Eu não sei porquê, não quero q isso aconteça dnv. De repente a pessoa não parece mais tão importante, só uma pessoa qualquer. Eu não posso continuar me machucando quando o amor n é correspondido, e quando é, eu n posso simplesmente largar a pessoa e deixar de querer. O que eu faço??? Tô tão confusa. Alguém entende?

  • Lorraine Oliveira

    Amor proibido? Pais? Explique melhor

  • The Doctor

    Cara vc precisa se tratar, vc é meio retardado

  • Patricia Souza

    Eu tô morta com esse texto!!! Muito revelador pra mim… E essa frase final “Amar me faz poderoso, ser amado me torna vulnerável. Dar me confere força moral, receber me expõe aos medos e inseguranças. Por isso é mais fácil amar do que ser amado” foi uma pedrada.

    Sou muito questionadora e busco respostas pra todas as minhas lutas internas… Vc me ajudou muito!!!

  • Agora Momento

    Eu gostaria de poder gostar de uma pessoa que sei que gosta de mim e demonstra, más, infelizmente não sinto a mesma atração por ele. Seria bom poder sentir o mesmo por ele, más, o amo e sinto carinho apenas como amigo. Mas tbem não sou dada a correr atrás de pessoas que não tenham bons sentimentos por mim e entendo que elas, assim, como eu não tem culpa ou controle sobre o sentimento de atração. Acho que para um bom relacionamento há necessidade do equilíbrio entre atração e inteligência de assimilar os sentimentos ou não sentimentos, tanto nossos como dos outros! Assim fica mais fácil conviver com a realidade da incapacidade de sentir atração tanto de nossa parte como à do outro.