“Concordo com o projeto de descriminalizar o consumo de maconha, mas discordo de quem afirma que qualquer uso de maconha seria inócuo. Nos adolescentes, por exemplo, um consumo diário e intenso (solitário, já de manhã) é frequentemente o sinal de uma depressão que é MUITO difícil vencer, uma vez que ela se instala.
Entendo que alguém, mofando num tédio mortal (e inexplicado), chegue à conclusão de que a vida sem maconha é uma droga. Mas, infelizmente, em regra, a droga aprofunda o vazio que ela é chamada a compensar ou corrigir. Ou seja, talvez a vida sem maconha seja uma droga, mas a maconha sem vida também é.” [*]

Contardo Calligaris, psicanalista e escritor

Antes de mais nada gostaria de ressaltar que não estou fazendo nenhuma apologia ou estímulo sobre o uso da maconha ou qualquer outro tipo de droga. Mas me sinto no dever de informar para quem quer que seja algumas realidades particulares que tenho encontrado na experiência clínica com usuários de maconha. Não podemos fingir que a maconha não está por aí e nem achar que ela será erradicada do mundo, por isso é fundamental que se fale sobre esse assunto tão antigo.

Como a prevenção e a informação são as melhores formas de evitar que algo aconteça acho que esse assunto merece ser melhor abordado para conhecimento de pais, educadores, profissionais da área da saúde e àqueles que podem estar tentados a experimentar a maconha, se já não fazem uso dela.

Minha experiência pessoal com a maconha é nula. Em dois momentos da minha vida me vi diante dela. Um amigo de adolescência foi chamado a fazer um “rolê”, não entendi nada, só vi que os olhos dele brilharam, quis ir junto. Achei que ele ia passear em algum lugar legal. Ele me barrou e disse “você é bom demais para fazer isso, outra hora te explico, você fica aí, daqui a pouco eu volto.” Não entendi na hora e me senti até humilhado, depois ele me explicou o que aconteceu. Aquele dia foi premiado com umas cacetadas de uns policiais. Pensei “deve ser algo perigoso”.

Muitos anos depois outro amigo me mostrou de perto e me colocou nas mãos e me disse “você é o tipo de pessoa que não deveria entrar nessa, seu coração é grande, tem muita gente para ajudar”. Pensei melhor e recuei. Achei estranho ouvir o mesmo argumento. Decidi que preferiria tratar essa questão de outra forma e não experimentei, talvez mais por medo de gostar do que outra coisa.

Lógico que em minha formação acadêmica pouco se falou sobre o tema, mas minha curiosidade sempre me fez pesquisar tudo o que pude, além do que a faculdade ofereceu. Resultado, sou um conhecedor teórico e de ouvido sobre o assunto, vou falar sobre a maconha com essa ressalva.

No consultório de psicologia nunca me deixei paralisar pelos meus preconceitos, sempre questiono todos até o limite de minhas forças. Acho que desenvolvi uma tolerância e abertura para a diversidade humana que até aborrece meus amigos mais próximos. Isso me ajudou a ouvir as pessoas que chegam até o consultório querendo compreendê-las a partir do ponto de vista delas e não do meu.

Curiosamente  atendo e já atendi muitos usuários de maconha e acho que até onde pude perceber eles sempre se sentiram acolhidos pelo meu olhar. Graças a essa postura de abertura, não repressiva, condenatória, moralista ou autoritária creio que cheguei em reflexões muito mais profundas e com resultados muito mais produtivos do que se assumisse que o único problema que uma pessoa tem na vida é a maconha. No meu entender, a maconha é só mais um aspecto que compõe a complexidade que constitui o problema daquela pessoa.

Isso me ajudou a chegar nas conclusões inconclusivas que apresento até agora. Se quiser informações mais técnicas clique aqui.

O tempo de clínica me ajudou a questionar alguns mitos que giram em torno da maconha. Agora tomei coragem para compartilhar com vocês.

1. “Maconha é ruim!”

Acho que devo esclarecer o que entendo por ruim. Ruim é algo que causa desprazer e sensação de repugnância, asco, rejeição orgânica, psicológica ou social. Ruim, portanto, é um entendimento bem relativo de pessoa para pessoa. Acho dobradinha ruim, meu pai adorava. O mesmo acontece com a maconha.

Existem pessoas que ao experimentar tem uma experiência de ansiedade crescente, acompanhada de euforia, um pouco de paranóia e mal-estar. Outras pessoas e talvez a maioria dos usuários tenha uma sensação de uma certa leveza, associada com divertimento incondicional, alegria, tranquilidade, pensamento expansivo e perda da sensação da passagem do tempo. Eles atribuem isso como uma boa experiência e negar isso seria ingenuidade. No entanto, o fato de causar uma sensação de prazer à curto prazo não implica que seja produtivo e psicologicamente saudável. Ruim como sensação não é, mas causa danos como consequências. Pessoalmente, eu vejo muito mais perdas do que benefícios, afinal sou do pensamento que a maior loucura da vida é ficar lúcido e sobreviver ao caos.

2. “Faz mal a saúde”

 Nesse aspecto existe um debate interminável entre os anti-maconha e os pró-maconha. Estudos alegam que o uso controlado em hospitais para certas doenças crônicas aliviam alguns sintomas de mal-estar. Outros estudos atestam perda de neurônios, dependência física à longo prazo, prejuízo pulmonar e baixa de testosterona. Meu olhar vai em outra direção: da saúde emocional.

Penso que esse é o aspecto mais nocivo da maconha. A vida juvenil apresenta mil desafios e exige que o jovem enfrente decisões cada vez mais complexas e difíceis. Acredito que um bom equilíbrio entre conquistas e frustrações vai criando um jovem adulto mais saudável.

Alguém que desenvolve “músculos emocionais” fortes costuma enfrentar as coisas tal como acontecem. O problema da maconha, no meu entender, é que ela afrouxa essa capacidade combativa. Faz a pessoa ter um otimismo bobo e uma sensação de bem-estar passivo que desacelera o tempo de reação vital dela. A capacidade de se concentrar diminui e aquela reatividade necessária para se reerguer do bom combate fica comprometida. Resultado: uma pessoa incapaz de assumir os compromissos crescentes que o início da vida adulta apresenta. Acredito que esse é um dos pontos fundamentais da terapia com usuários de maconha. [para mais clique aqui]

3. “Maconha causa depressão”ou “Vai deixar a pessoa louca”

 Tenho uma visão muito particular sobre a presença de transtornos mentais associados à maconha. Penso que a maconha não causa depressão, ansiedade, Transtorno do pânico ou esquizofrenia. O que observo é que as pessoas que tem esses quadros psicológicos pré-existentes estão mais vulneráveis a fazer uso da maconha na adolescência. Traduzo, uma criança que trazia uma predisposição depressiva, ansiosa ou psicótica começa a manifestar esses sintomas na época da adolescência com mais intensidade por conta das mudanças hormonais.

Uma depressão que estava camuflada na infância (em forma de irritabilidade e falta de concentração) surge na adolescência como uma inadequação social associada a uma depressão crescente. Os pais ignoram esses sinais por muitos motivos (falta de informação, desconhecimento do que é razoável na adolescência, falta de proximidade com o filho ou até pais com problemas psicológicos iguais) e com isso deixam escapar essas mudanças de comportamento. Afinal, adolescência é uma fase enigmática para todos. Como o adolescente não percebe sua vulnerabilidade emocional acaba encontrando na maconha uma forma de contornar alguns sintomas presentes nesses quadros depressivos ou ansiosos (como uma automedicação).

No entanto é uma maquiagem superficial que contorna os sintomas por curto tempo. A longo prazo só aprofunda o drama emocional. E alguns estudos mostram que o uso continuado de substâncias estimula o surgimento de um quadro psiquiátrico latente  (não cria, só exalta).[para mais clique aqui]

4. “Causa dependência!”

 Entre as drogas mais usadas o potencial de dependência química da maconha nem é tão grande (o álcool é o quinto, o tabaco é o nono e a maconha nem entra nas 10 mais).

No entanto acredito que o grande poder de aderência da maconha se deve às sensações de prazer e alívio de tensão interna que ela traz. A dependência psicológica é maior do que a química. Ela cria uma compulsão emocional fortíssima, pois a pessoa não consegue mais associar situações de divertimento e bem- estar sem fazer o uso da maconha. Comparo a um cara que tem uma ansiedade tremenda e que toma Viagra para garantir sua ereção por mais tempo e reconquistar sua autoconfiança sexual que estava abalada. Depois de um tempo já não consegue mais transar sem o Viagra e mais adiante se pega deprimido e ainda mais impotente. Agora já não consegue resolver o real problema e também não se arrisca a transar para valer sem o remédio.

A compulsão emocional leva o usuário a perder sua capacidade de fazer escolhas legítimas e reais, pois o limiar de discernimento fica comprometido. Para alguns casos a maconha passa a ocupar um papel psicológico parecido com um relacionamento amoroso daqueles fervorosos e obsessivos. Todo o resto da vida fica ocupado, pois para adequar o uso da maconha em sua vida a pessoa abdica de alguns trabalhos, convívios sociais e relacionamentos de amizade, amorosos e familiares. Do mesmo jeito que o trabalho para alguns pode assumir características compulsivas a maconha também.

5. “É coisa de bandido”

 Acho que o uso de maconha é coisa de pessoa, como eu ou você, usuário ou não. O uso de maconha não faz da pessoa um contraventor. Os últimos debates sobre a descriminalização do uso da maconha vem questionando exatamente o limiar do que diferencia o usuário comum daquela pessoa que trafica. Seu filho, amigo ou conhecido continua sendo uma pessoa amada, tratá-la assim facilita as coisas. Se quer ajudar nunca perca de vista a identidade original daquela pessoa.

 6. ”Começa na adolescência”

 A adolescência costuma ser a fase em que mais se inicia o uso da maconha, mas não é exclusividade desse período da vida. A adolescência é uma fase muito vulnerável ao potencial uso de drogas em geral. Período da vida recheado de grandes revelações e liberações pessoais.

Na competição feroz que existe entre os que mais se destacam e aqueles que ficam na obscuridade a maconha surge como um símbolo de liberdade pessoal, coragem e rebeldia entre os jovens. Para eles usar maconha é um status de desbravamento social, se você usa é “descolado” e está na mesma pegada e onda que os outros. Acham que as festas são mais gostosas, os baladas mais divertidas e até os papos com os amigos ficam mais soltos. Se quer fazer parte desse clube a maconha é um bom cartão de visitas. Para alguns jovens inseguros de si e ávidos por fazer parte da turma pop recusar é um passaporte para uma vida social isolada. A pressão social é forte!

7. “Meu filho ficou diferente!”

 Sim, seu filho está diferente, mas você também, pois não consegue mais olhar para aquela criança crescida como antes. Já não consegue mais se relacionar com seu filho para além da maconha. Reduziu cada manifestação dele de raiva ou afetuosidade como fruto da maconha. Já não sente honestidade, cumplicidade ao carinho genuíno em relação a ele.

Normalmente a pessoa começa a alterar o comportamento quando está numa fase mais adiantada do uso da maconha. Aquele rolê (saída com amigos ou sozinho para usar maconha) esporádico começa a ficar diário e a pessoa tem que criar artifícios para conseguir a droga e depois fumar em local seguro. Essa paranóia constante pode provocar irritabilidade, mudanças de horários habituais, ida a locais perigosos e tudo isso junto provoca alteração no comportamento.

8. “Vai abrir porta para outras drogas”

 É importante dizer que cada droga tem um efeito específico, existem as drogas estimulantes, depressoras e alucinógenas. Portanto, existem personalidades de pessoas que se adequam mais a um tipo de droga específica. É natural que pessoas mais depressivas e apáticas emocionalmente procurem drogas mais estimulantes como cocaína e anfetamina. Pessoas mais ansiosas tendem a procurar drogas depressoras como álcool, sonífero e heroína. E pessoas que estão emocionalmente anestesiadas buscam as drogas alucinógenas como a maconha e o ecstasy.

Isso quer dizer que a pessoa tende a aderir a um tipo específico de droga dependendo do que precisa para tapar um buraco emocional. A maconha costuma ser uma droga de mais fácil acesso. O fato da pessoa procurar drogas mais potentes (em dependência química) não quer dizer que ela incita outras drogas, apenas é uma fase de experimentação de alguma droga até chegar àquela que mais se adeque.

9. “É o fim da pessoa, precisa internar”

 Nem sempre o usuário de maconha precisa ser internado. Entendo que a internação deve ser aplicada em casos que existe um tipo de prejuízo psicológico, social e profissional/estudantil considerável. O tratamento não é fácil, pois o usuário minimiza os riscos potenciais da maconha. Ele trata ela como uma pessoa quase, uma droga amiga e companheira de momentos bons e ruins. A pessoa que usa maconha tem uma relação quase emocional com a droga e ela costuma marcar uma certa fase da vida dela. Abandonar esse idealismo que gira em torno da maconha é o mais difícil.

10. “É coisa de gente fraca e covarde”

 Acho que é coisa de gente que precisa de reforço na vida e cair na real de que está emocionalmente doente. Para finalizar gostaria de explicar o que as pessoas costumam buscar na maconha e ninguém entende. Agora, não se trata de concordar com essas coisas ou não, mas constatar que são buscadas pelos usuários.

Essas são algumas características relatadas por algumas pessoas e notei como traços comuns:

 Relaxamento

Alegam que ficam mais calmas e menos irritadas com as situações. O problema é que esse relaxamento impede que a pessoa esteja ativa para quase tudo na vida. Uma boa dose de reeducação emocional faria a pessoa aprender por conta a própria a se portar diante de frustrações, medos e impasses na vida.

Sentido de comunhão

Gostam de sentir que estão num grupo em que todos se sentem conectados como numa fraternidade. Se protegem da polícia, inventam mentiras para enganarem seus pais mutuamente e se vigiam um ao outro na hora que sentem aquela paranóia ou bad trip (quando o efeito da maconha cria uma sensação de mal-estar ao invés de bem-estar).

O momento mágico em que a maconha passa de mão em mão é relatado como um momento mágico e divertido. Alguns dizem que até lembram aquelas tribos indígenas antigas. Por isso os grupos de apoio no tratamento é tão importante, pois a pessoa precisa de uma nova identidade grupal. Não adianta você substituir um hábito sem oferecer algo equivalente e mais saudável.

Busca espiritual

Muitos dizem que sua conexão com algo maior aumenta e passam a ver o mundo com mais compaixão e tolerância. Aqueles que tinham dificuldade de entrar em contato com alguma forma de religiosidade instituida acabam adotando o culto a Jah e o rastafári.

O clima da música, do sexo e do amor livre são estimulantes adicionais que alguns usuários procuram. Nem todos adotam essa cultura e filosofia. Mas de modo geral a maior parte dos usuários descreve um sentimento de união com algo cósmico.

Abertura de mente

Para algumas pessoas também surge uma tendência reflexiva, filosófica e existencialista. Acabam sentindo que suas mentes ficam mais abertas e criativas. Outros se fixam na ideia de que encontraram o sentido da vida nessa forma de vida sem ganância ou busca de dinheiro. Penso que é um paradoxo, pois acabam ficando menos focados em buscar seus objetivos de vida e conquistar novas possibilidades (por meio do dinheiro) e, no entanto continuam usufruindo dos benefícios sociais e financeiros dos pais a quem tanto condenam.

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Para concluir digo que a saída não é tão simples como se imagina. Fechar os olhos para as coisas que estão ditas acima também não ajuda. Espero com esse texto ter começado um debate sobre um assunto tão importante e falado de uma forma tão pobre ou formal na maior parte das publicações existentes. Continuo levantando o lema que a forma mais “sabiamente louca” de viver é estar conectado com a realidade tal como ela é.

Se apaixonar, sentir o calor de uma prática esportiva, saber que consegue fazer muito bem uma coisa, fazer descobertas sobre a vida, a tarefa de abraçar o mundo e beneficiar os outros dá um barato tremendo, mas não traz os efeitos colaterais daquela leseira existencial (típica do uso da maconha).

Gosto da frase do Paulo Coelho no documentário “Quebrando o Tabu” no minuto 2:02 “É, [para o jovem] realmente a droga é fantástica, você vai gostar, mas cuidado, hein? Porque você não vai poder decidir mais nada, basta [dizer para o jovem] isso!”

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