* Por Frederico Mattos

Jogos sociais são formas de distração psicológica que desviam a atenção daquilo que realmente importa, além disso ela nos afasta de um tipo de intimidade genuína. Todos os jogos sociais tendem a simular um estado de aparente controle e segurança e nos afastar da sensação de vulnerabilidade pessoal.

Os jogos surgem de relações que se pretendem manter superficiais ou fragilizadas ainda que se diga o contrário. É como uma tentativa de manter algo significativo oculto, dissimulado ou fechado.

Quem se arrisca?

Quem se arrisca?

Existem jogos mais óbvios e com movimentações simples como aquela manha que faz quando se vê contrariado, mas podem ser jogos mais complexos que podem transcorrer ao longo de uma vida inteira. Já atendi pessoas que estavam tão identificadas com seus jogos que nem sabiam quem eram e quando tentavam se descrever pairavam muito rasas nas próprias características.

Um sinal claro se uma pessoa está vivendo sobrecarregada de jogos é o sentimento de vazio. Nos jogos psicológicos a verdadeira substância emocional do que está sendo vivido fica tão encoberto em estratégias de poder e dominação que aquilo que realmente dá sentido e gosto pessoal permanece soterrado em fuligem mental.

 

Alguns exemplos:

 

1- Na balada ela fica fazendo cara de difícil para assegurar que um cara “confiante” a paquere olho no olho.

 

Nesse jogo ela está ocultando a própria ansiedade em encontrar uma pessoa para se relacionar. Se conta com a beleza já sabe que pode barganhar alto, mas mesmo assim corre o risco de selecionar as pessoas por motivos superficiais e não se permitir ter um encontro de verdade. Provavelmente está muito presa em artimanhas e sequer sabe onde começa o seu desejo e quanto de preconceito impede seu coração de sentir algo legítimo por alguém. A vítima desse jogo se deixa cair pela superioridade estética e se sente bloqueada para qualquer aproximação que não seja usando de outros jogos.

 

2- Ele está de novo emprego e diz para todo mundo que está adorando o desafio.

 

O comportamento aparentemente autoconfiante é um dos jogos mais comuns que partem de fontes muito temerosas, pois a pessoa realmente confiante costuma não alardear os seus feitos. Nesse nível de ansiedade primária é muito natural se reafirmar e usar as pessoas como testemunhas de suas realizações.

 

3-  O casal fica a todo momento fazendo provocações para agredir um ao outro.

 

Muitos casais são condicionados a ter altas emoções sejam elas de amor ou raiva e como não estão habituadas a administrar fases de baixa acabam usando de brigas e provocações para apaziguar o medo de que o tesão ou a intensidade acabem.

 

4- Ela está magoada com ele e faz greve de sexo até que ele se desculpe.

 

Ao invés de admitir o próprio temor e as dificuldades sexuais esse casal entra no jogo do sexo-moeda, ou seja, o sexo passa a ser a moeda de troca por bom e mau comportamento cotidiano.

Nesse caso essa mulher se sente impotente para acessar o parceiro (que também está emocionalmente bloqueado) para uma abertura maior. Ele sabe fazer só sexo bruto (dissociado de afeto e intimidade emocional) e ela ainda sente dificuldade de assumir plenamente sua disponibilidade sexual (dissociada de emoções profundas).

 

5- Ele se faz de vítima para a mãe ajudar com algum dinheiro.

 

Como não se dispõe a enfrentar o mundo adulto e seus desafios acaba sempre causando problemas para si mesmo e assim usar a mãe como um recurso para perpetuar seus próprios medos e fracassos. Na dúvida sempre prefere recuar ao papel do menino frágil e indefeso.

 

O caminho para quebrar os jogos é ter a coragem de explicitar o que está acontecendo usando de tato e generosidade. Se a pessoa usa de um artifício mais rígido sinaliza que o ocultado é mais doloroso. A quebra dos jogos precisa partir de alguém que esteja mais livre dos próprio jogos, ou seja, uma pessoa que tem treinado uma comunicação mais autêntica e harmoniosa [leia mais aqui]. Normalmente quando alguém tenta quebrar os jogos usando artifícios de poder ou jogos mais sutis do tipo “eu te ajudo, mas quero algo em troca” o resultado é pouco efetivo e até desastroso.

Deixar claro um constrangimento, um incômodo, uma culpa, uma raiva sem ser invasivo ou reativo é muito trabalhoso, de modo geral escolhemos a maneira mais cômoda de agir que é embarcar num mar de acusações sem fim.

A melhor maneira de abrir uma alma é sendo uma também.
___________

Captura de Tela 2013-09-13 às 17.34.09* Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor do livro “Mães que amam demais”. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva um bonsai, lava pratos, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida e se aconchega nos braços do seu amor, Juliana. No twitter é @fredmattos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...