Ele sumiu, e agora?

* Por Frederico Mattos

Parecia tudo tão lindo. Ele se mostrava querido, companheiro, declarando amor pelos quatro cantos e anunciando comprometimento para todos, pessoal ou virtualmente. Para você, parece que finalmente tinha achado o príncipe encantado mas, de repente, sem aviso prévio, a pessoa anuncia que quer romper e vai embora.

Chamo esse tipo de síndrome de “apagão súbito emocional”. Quando tudo parecia perfeito e a pessoa simplesmente desiste e lamenta por não conseguir seguir em frente. Neste caso excluo as histórias em que a pessoa voltou com ex ou partiu para a putaria. Incluo aqui as que são legítimas situações nas quais ele se vê incapaz de seguir num relacionamento.

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Um fenômeno muito parecido com esse acontece no campo da Pediatria. Cinco em cada dez mil crianças morrem no Brasil da síndrome de morte súbita infantil. Bebês saudáveis são encontrados mortos quando os pais tentam acordá-los. A causa é inexplicável e o sentimento é arrasador, principalmente quando nada na ciência médica explica. A criança simplesmente morre sem aviso prévio.

Você que passou por esse problema no seu relacionamento amoroso deve estar se perguntando o que aconteceu, afinal não consegue se conformar. Eu explico, ainda que seja difícil entender.

Imagine essa pessoa (que colocou todo o gás do mundo em muito pouco tempo e prometeu mundos e fundos) como um maratonista que saiu queimando a largada e colocando toda sua energia de uma vez só no primeiro quilômetro sendo que ele tem mais 41 km pela frente. Ao se dar conta que terá toda uma vida pela frente, o sujeito desiste da corrida por falência pessoal e percebe que gastou todo o combustível numa acelerada inicial exagerada.

Ninguém aguentaria ser tão perfeito num relacionamento por tanto tempo sem que as rachaduras da personalidade surjam rapidamente. Para pessoas muito metódicas, ser perfeito é quase uma obrigação e por isso se torna praticamente impossível seguir depois de terem usados todas as cartas na manga.

Ele quis preencher todas as lacunas e mostrar que era um cara incrível, diferente dos outros, mas sem o saber escondeu um segredo perverso, para ele e  você. Ao tentar atingir a perfeição, não se deu conta do “pássaro morto” que carregava consigo. Esse conteúdo psicológico tóxico é do tipo que cria uma compensação maravilhosa para contrapor uma sensação de não merecimento e desprezo. Este desprezo surge exatamente por achar intolerável que alguém o ame, sendo ele tão detestável.

O ciclo se reforça a cada término desastroso, pois a pessoa reafirma que é incapaz de sustentar um convívio razoável por muito tempo. Para ele é tudo ou nada e sem perfeição não há relação. Ele ou ela não tem ciência disso e não consegue entender porque todos os seus relacionamentos são tão curtos, intensos e passageiros. Os amigos e familiares já não colocam a mão no fogo por ele, pois sabem que qualquer pessoa apresentada como a “namorada da vez” terá vida curta.

O mais trágico é que a cada término a pessoa sente que não fez o suficiente e tenta entrar em um novo relacionamento relâmpago achando realmente que dessa vez será diferente. Toda essa convicção superficial é passada para uma mulher e ela aceita que dará tudo certo. Mas passado o momento inicial de euforia surge o “apagão súbito” carregado de justificativas incompreensíveis para quem tomou o pé na bunda.

A pergunta de quem foi dispensada é “como não previ isso? A culpa deve ser minha!”. Na verdade não há quem se possa culpar por causa disso, afinal ninguém consegue antever um apagão súbito. Como adivinhar que uma pessoa que vem de forma tão intensa, apresenta família, divulga no Facebook, consegue mudar a rota completamente como se nada tivesse acontecido? Não se culpe, você não podia prever nada, logo, não foi feita de boba.

O ponto que apresento aqui não é uma defesa de quem tem esse comportamento que causa danos, angústias e conflitos. É apenas uma tentativa de explicar um fenômeno psicológico recorrente e que não entra na categoria de mau caratismo. A própria pessoa se imagina que não cairá no mesmo buraco ainda que sucumba novamente em sua instabilidade. É uma pessoa que precisa de ajuda, mas não vinda de quem tomou o pé na bunda e sim de alguém que tenha competência para perceber o pano de fundo desse comportamento tão perturbador e carente de tratamento.

CONVITE PARA VOCÊ!

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Avatar fred barba* Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor do livro “Como se libertar do ex” [clique aqui para comprar] “Mães que amam demais”. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva um bonsai, lava pratos, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida e se aconchega nos braços do seu amor, Juliana. No twitter é @fredmattos.

 

 

Revisão: Bruna Schlatter Zapparoli

About the author

Sonhador nato, psicólogo provocador, apaixonado convicto, escritor de "Como se libertar do ex" e empresário. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas medita, faz dança de salão e lava pratos.

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  • Ana

    Que post maravilhoso! Me relacionei com um viúvo nos dois últimos meses e foi exatamente como o texto citou: Me apresentou a família, amigos, de mostrou total atencioso, dentre outras atitudes que me fizeram ter certeza que esse relacionamento tendia a ser promissor, no entanto, ao me declarar (mesmo ele tendo feito isso antes) terminou de forma inexplicável. Convivi com ele durante esse tempo e pelo que pude compreender dele é justamente isso, alguém que não acredita que merece ser amado e que ao perceber que o outro irá amá-lo com todos os seus defeitos e qualidade prefere se esquivar. Triste isso!