10 obstáculos psicológicos que um atleta precisa enfrentar numa decisão de campeonato

* Por Frederico Mattos, psicólogo clínico

Toda pessoa sabe como é enfrentar uma entrevista de emprego, um primeiro encontro ou uma conversa difícil com um chefe, mas raramente enfrentará o seu máximo limite se não estiver diante de um campeonato esportivo de alta performance e pressão como o futebol. Quem está na torcida sempre imagina que os milhões que os jogares recebem deveriam blindar suas estruturas psicológicas: “ele ganha fortuna para isso, tem que aguentar!” A ingenuidade deste raciocínio é que a riqueza não modificou a natureza da personalidade do atleta, a imaturidade pode fazer parte da vida de um milionário. Mesmo a experiência de ter encarado outras inúmeras decisões apertadas também não prepara alguém para desafios além de qualquer limite. Infelizmente, vivemos numa cultura que subestima a importância da psicologia e a relega a casos onde o problema já está instalado. Seleção85 Atletas de alta performance deveriam passar por cuidados emocionais preventivos muito antes das datas competitivas, afinal, são apenas pessoas (falíveis como qualquer outra) com milhões de pessoas depositando dinheiro e expectativa sobre eles. Os obstáculos externos e internos são variados. Aqui eu comento alguns deles:

1- Encarar a pressão de sua torcida Sua vizinhança pode até ser dura e falar mal de você por causa de um escorregão, mas imagine lidar com a fantasia de milhares de pessoas especulando sobre sua vida pessoal, familiar e profissional por causa de um jogo. Se o atleta não tem habilidade para filtrar informações sem que aquilo abale sua confiança, é bem possível que ele afunde numa paranoia insuportável. Na cabeça dele, poderá avaliar cada ação com essa hipersensibilidade alterada e começar a temer qualquer passo imaginando os ataques pessoais que receberá.

2- Encarar a pressão de familiares Esposas, pais e filhos são apoiadores e por este motivo pressionam mesmo sem querer. O carinho de pessoas amadas, sem que se perceba também influencia o emocional. Como vão decepcionar quem está ao lado deles nos piores momentos? O amor também oprime, mas ninguém se dá conta disto.

3- Encarar rivalidade com seus colegas de equipe Além da competição declarada com adversários, existe um braço-de-ferro velado entre os próprios atletas que não pode ser ignorado. Quem está no lugar de titular se esforça para não perder a posição e quem está na reserva não vê a hora de que o colega falhe – ainda que não admita conscientemente – para assumir o lugar. Essa disputa costuma ficar evidente em partidas preparatórias e nos treinos em que todos querem mostrar o melhor desempenho. Ao mesmo tempo são companheiros de equipe e precisam torcer todos um a favor dos outros e lidar com essa ambiguidade. O atleta precisa ter maturidade para colocar sua inveja a serviço do time e demonstrar apoio ao mesmo tempo que deseja ardentemente ocupar o posto principal. [leia mais: como lidar com a inveja]

4- Encarar a pressão dos patrocinadores O dinheiro investido em cada atleta e na equipe gira numa escala de valores monstruosos. Se seu salário é uma pressão sobre você, imagine que um lapso, uma mordida (Suárez, atacante uruguaio) ou uma cabeçada num adversário (Zidane) seriam capazes de colocar toda sua carreira em risco. A imagem pessoal precisa se equilibrar entre bom-mocismo e lado guerreiro e, se uma coisa se desbalançar exageradamente, o jogador pode depreciar seu valor aos olhos da torcida e dos patrocinadores. Cada passo, portanto, é milimetricamente construído para que não seja visto como um chorão-fraco e nem um cachorro louco e perigoso. Administrar cada comportamento e imagem pública não é tão simples como se pensa, principalmente com uma torcida como a do Brasil, sensível a qualquer variação do jogador. E o que afeta os olhos da torcida afeta o prestígio diante do patrocinador.

5- Encarar suas contradições internas Não bastassem os problemas com o mundo externo, ainda existem conflitos que todo o ser humano enfrenta com seus próprios demônios. Muitas pessoas são duras consigo mesmas, cobrando performances irreais mesmo para alguém que sempre esteve acostumado com pressões variadas. O desejo por perfeição e o medo de fracassar são obstáculos densos que um atleta precisa driblar para se sustentar concentrado emocionalmente. O adversário de carne e osso é fichinha perto desse bloqueio. [leia mai: Como aceitar suas limitações sem raiva]

6- Superar sensação de dívida com os pais Muitos atletas veem nos pais figuras de autoridade e gratidão simultaneamente e no mais fundo de seus corações desejam que eles tenham orgulho de suas façanhas pessoais. Na intimidade mais secreta, ainda que não admitam, querem que seus pais os reconheçam como bons frutos de seus esforços pessoais. Querem trazer recompensas financeiras, mas também emocionais do tipo: “você passou privações para que eu estivesse aqui jogando, agora vou devolver tudo em forma de alegria pelo meu trabalho”. Isso é lindo e ao mesmo tempo gerador de estresse interno e não é todo mundo que consegue perceber essa dívida interna causando pressão.

7- Superar impulsos autodestrutivos Se qualquer pessoa precisa lidar com raiva, culpa e medo de fracasso um atleta precisa lidar com isso triplicado. Do mesmo jeito que você se boicota num dia que será testado, o atleta também pode se ver confrontado com o receio de falhar e por isso acabar falhando. Ele pode ficar dividido entre fugir e se esconder atrás de sua autopiedade ou quebrar suas crenças limitantes e testar no mata-mata sua real capacidade. Muitos escolhem não encarar sua incapacidade (ou triunfo) e se machucam, fraquejam como forma de dar desculpas para si mesmos. Em sua consciência afirmam: “não falhei, meu corpo não me deu condições” e assim podem não encarar que na verdade ficaram paralisados pelo medo de se colocar diante da prova definitiva. [leia mais: Como superar a autossabotagem]

8- Flexibilidade para lidar com mudanças bruscas Durante um jogo, cada segundo pode ser definitivo para o destino de um atleta e se ele for muito rígido para encarar perdas momentâneas ou mudanças bruscas, ficará ruminando no meio de uma partida o que poderia ter feito de certo e errado. Nessa micro-fração de segundo em que está se debatendo, seu desempenho cai e ele perde o controle de sua potência motora plena. A mente interfere no corpo e toda vitalidade que precisa é abafada pelo medo interno diante da mudança repentina. Quanto mais deixar o passado para trás, mais o jogador pode readequar suas novas condições. [leia mais: Personalidade rígida]

9- Vulnerabilidade como força Se o atleta achar que fraqueza é um problema definitivo, nunca conseguirá dar a volta por cima quando tiver medo, ansiedade ou euforia. Se ele está com muito medo é somente porque tem muito a defender e tem muito amor pelo que faz. Se está triste é porque sabe que tem que balancear os desejos de todas pessoas com sua boa performance. Se está agitado é porque quer dar conta de tudo o que está em sua volta. Se conseguir tirar forças de suas fragilidade sem que elas o aniquilem como ser humano, então pode dar a volta por cima, dentro ou fora do jogo. [leia mais: Comunicação a(e)fetiva]

10- Lidar com a derrota sem humilhação E se em última instância precisa encarar a derrota dura, a que está passível todo atleta, ele precisa saber que o jogo, ainda que pareça defini-lo como profissional, não o define como pessoa. Como pessoa e profissional sua qualidade, mérito e prosperidade precisam seguir inabaláveis independente do resultado do jogo, até porque nas disputas apenas um é o vencedor e o mérito dos demais não se deteriora instantaneamente por isso. O atleta vitorioso, afinal, não é aquele que vence sempre, mas sim o que se dispôs a enfrentar todos os adversários externos e internos com o peito aberto sem medo da fase de baixa e sem vaidade excessiva na fase de alta. [Leia mais: Como perder com dignidade]

 


Avatar fred barba* Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor do livro “Como se libertar do ex” [clique aqui para comprar] e “Mães que amam demais”. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva um bonsai, lava pratos, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida e se aconchega nos braços do seu amor, Juliana. No twitter é @fredmattos e no instagram http://instagram.com/fredmattos – Frederico A. S. O. Mattos CRP 06/77094

 

Revisão: Bruna Schlatter Zapparoli

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Sonhador nato, psicólogo provocador, apaixonado convicto, escritor de "Como se libertar do ex" e empresário. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas medita, faz dança de salão e lava pratos.

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