A busca da felicidade pode ser um veneno

* Por Frederico Mattos, psicólogo clínico

Quando minha filha nasceu uma pessoa me perguntou se eu desejava a felicidade para ela. Eu disse que não, e sob o espanto da minha resposta expliquei, “desejo que ela era amadureça cada fase da vida para se tornar uma pessoa cheia de sabedoria e compaixão, a felicidade virá depois disso e não apesar disso”.

Antes que você fique desapontada com minha resposta eu preciso dar dois passos atrás para desconstruir esse mito pós-moderno da felicidade irrestrita e como ele pode estar envenenando nosso bem-estar e relações.

A felicidade, tal como configuramos na atualidade parte de um significado um pouco estranho, superficial e desvinculado de alteridade. Uma pessoa que está numa festa, sob efeito de substâncias psicoativas, se descreveria sentindo felicidade. Se felicidade for sinônimo de prazer, sentimento de expansão cinestésica e bloqueio do córtex pré-frontal, responsável pela capacidade de julgamento e projeção do futuro, então ela está feliz. A definição de felicidade deveria ser uma construção existencial robusta de bem-estar, senso de realização, engajamento em projetos pessoais e coletivos e um senso de enlevamento existencial baseado em relações nutritivas. Então essa pessoa supostamente feliz (alegrezinha) está tendo apenas um estado passageiro e alterado de consciência misturado com grande euforia.

Prazer, alegria e euforia são diferentes de felicidade, a tristeza, portanto não é o oposto de felicidade, mas de alegria, são emoções e não bases existenciais. Uma pessoa feliz pode estar de luto, é passageiro, e uma pessoa infeliz pode estar alegre/eufórica, passageiro também.

O que garante a diferença ente estados passageiros e duradouros é a consistência e os benefícios que surgem de ambos. A felicidade genuína, não aquela condicionada por circunstâncias passageiras, é expansiva e beneficiadoras para além das necessidades pessoais da pessoa feliz. Nesse caso, felicidade e bondade-compaixão estão intrinsecamente ligadas. A alegria desligada da felicidade genuína é um bem-estar passageiro e bem pessoal.

Isso nos leva a uma questão bem mais problemática enquanto sociedade. Na medida que a felicidade é narrada como algo que depende de dinheiro jorrando da conta bancária ou prestígio social, ela está na maior parte das vezes à serviço do narcisismo contemporâneo.

A cadeia lógica do pensamento corrente é “me esforço para conquistar o dinheiro abundante e o trabalho dos sonhos e então sendo feliz posso fazer algo pelos outros”. A compaixão vem depois da felicidade e não como um continuum indissociado. Por que isso é um problema? Porque a felicidade virou um fetiche hedonista, um status a ser postado em redes sociais, algo que leva a uma vida performática e competitiva, mais do que a própria experiência global e existencial de bem-estar. A epidemia de baixa autoestima é resultado dessa mentalidade de felicidade hedônica e performática que não se admite feliz se tudo não estiver parecendo brilhante e performando bem.

Uma pessoa incapaz de lidar com frustrações e sofrimentos inerentes do ciclo da vida não está construindo uma existência em sintonia com a felicidade genuína.

“São feixes somente aqueles que conservam a mente fixada em outro objeto que não a sua própria felicidade”
John Stuart Mill

Os desdobramentos educacionais são ainda mais desastrosos, os pais contemporâneos buscam treinar os filhos para serem felizes, mas usando o parâmetro do prazer e da liberação da alegria. Dizer “SIM” para os filhos, patrocinar todos os desejos sem freio os levaria ao prazer e, portanto para a felicidade; dizer “NÃO” os frustraria e os faria “infelizes”.

Oras, é na capacidade de regular bem as emoções e de fazer boas escolhas de curto, médio e longo prazo que a felicidade genuína depende. Felicidade consistente (não da perfumaria) tem primariamente mais relação com maturidade emocional do que prazer, sem que seja excludente. Uma enxurrada de prazer pode estar presente numa pessoa sob um acesso de mania do transtorno bipolar. Mas isso está longe da felicidade.

Uma pessoa a quem tudo é permitido e estimulado, a quem se elogia sem nenhum critério, para quem se autoriza tudo sem nenhum desapontamento pessoal , não parece ser possível advir disso sabedoria e boas escolhas. Se uma criança não é educada a lidar com o sentimento de vergonha, subproduto da percepção de quando erramos ou machucamos os outros, isso a levará a tentar sustentar sempre a performance elevada para evitar a vergonha e a tristeza. Isso é ninho de mentira, trapaça ou dissimulação, pois para manter a aparência de boa performance feliz uma criança será capaz de colar, inventar histórias e se sujeitar à opiniões problemáticas do seu grupo escolar. Tudo para manter a vibe da felicidade hedonista. Pais bem intencionados podem expor seus filhos a buscarem a felicidade e o prazer irrestrito por meios pouco legítimos.

O que ensinar para os filhos então? Capacidade de gerenciar suas emoções, inclusive as difíceis e dolorosas, sem medo, humilhação ou vergonha. O que pode garantir boas condições pessoais para que a felicidade genuína brote e a sabedoria de saber controlar os próprios impulsos, administrar a auto-motivação e o engajamento numa vida nutritiva e com menos rigidez, culpa e ressentimento. Se os pais e os adultos se dedicarem a aprender a lidar com seus sentimentos a felicidade será não só o resultado natural desse esforço, mas uma entrega que vai possibilitar benefícios para o resto do mundo. É a felicidade, como efeito da maturidade emocional, que muda o mundo e não o prazer egocentrado que nossa geração tanto busca.

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* Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor dos livros Relacionamento para leigos (série For Dummies)[clique], Como se libertar do ex [clique aqui] e Mães que amam (demais livros e cursos [aqui]). Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas pratica meditação, lava pratos, se aconchega nos braços do seu amor, Juliana e é pai de Nina.

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Frederico A. S. O. Mattos CRP 06/77094