‘Trago o seu amor de volta’: até que ponto isso realmente funciona?

Quando trombo com uma placa, daquelas que encontramos grudadas em postes, garantindo “trago o seu amor de volta” eu me pego imaginando as decorrências estranhas caso se cumpra aquele tipo de contrato assegurado por alguma suposta força sobrenatural.

A pessoa está numa posição vulnerável, meio rejeitada, meio ressentida, meio abandonada e meio sofrida. Em alguma medida colaborado para que o “amor” acabasse e decidindo buscar um guia espiritual para resolver suas questões amorosas com urgência:

Ô pai-alguma-coisa, aquela pessoa me deixou, desgraçada, disse que minha família era insuportável, que eu era uma pessoa desagradável e que nosso sexo era fraquinho. Como ela teve coragem de me deixar por essas banalidades? Quero ela de volta, quero que inclusive peça perdão pelo que disse e que comece a achar minha família adorável e aceite o meu jeito cheio de teimosia, implicância e ressentimento.

Que tipo de pessoa que vê o relacionamento como uma barganha de Procon espiritual poderia fazer uma história de amor funcionar? Aqui entre nós, independentemente de você acreditar ou não em forças espirituais (é bom nem confundir tradições religiosas legítimas com atividades duvidosas), a prerrogativa desse relacionamento “de volta” é, no mínimo, um tiro no próprio pé.

Mamãe, como você e o papai se conheceram?
Bem, filho, depois de algumas idas e vindas ele percebeu que eu era o amor da vida dele!
Mas ele não me parece muito feliz, mãe, e nem você!
Bom, filho, isso é um detalhe irrelevante, isso porque nem contei o motivo da volta dele…

Uma pessoa muito obcecada e fria poderia dormir tranquila por saber que a outra deitada ao lado está ali, com a alma contrariada, mas com o coração dominado por uma feitiçaria. Mas amor? Difícil.

O relacionamento amoroso tem muitos ingredientes: um pouco de boa logística, de personalidade que se complementem, uma vida pessoal interessante, de tesão — e isso tudo sustenta o amor. Alguém que até volte sob a costura de uma força oculta pode até voltar (não vamos entrar no mérito espiritual), mas certamente, o que menos voltou de verdade foi o amor.