Homenagem ao meu pai

Tenho colocado textos de pessoas que influenciaram minha forma de ver o mundo como sábios, filósofos, terapeutas e exponentes das melhores visões de mundo.

Nunca pensei que eu escreveria sobre meu pai no meu blog e nem algo tão pessoal, mas vamos lá!

Olha o naipe do cabrón!

Ele não tem nenhuma menção no Wikipedia, nenhum vídeo no Youtube ou perfil do Twitter, nenhuma frase marcante, nem ensinamento especial. O único link que posso referenciar ele está ligado diretamente no meu coração.

O Sr. André Simplício de Oliveira Mattos Filho completaria 72 anos no dia de hoje, canceriano puro.

Minha relação com ele sempre foi de muita ambivalência, de um lado o tinha como a mola mestra que sustentava os humores da minha casa, de outro esses altos e baixos me deixavam louco.

Ele era aquele que sempre colocava a vida para seguir adiante, seu jeito extravagante e falastrão dava energia para todos de casa ao mesmo tempo que nos envergonhava. Ele soava inconveniente em várias ocasiões com seu excesso de emocionalidade e impetuosidade.

Sedutor nato, sempre tinha um gracejo e uma palavra para impressionar a mulherada.

Isso me aborrecia, pois eu adotava o ponto de vista de minha mãe que como boa botucatuense e tímida ao extremo considerava meu pai um assanhado assumido.

Essa visão carregada de julgamentos me fez distanciar daquele homem que durante 13 anos de minha vida era meu herói. A perda de seu emprego como técnico em perfuração de petróleo na Petrobrás abalou radicalmente seu orgulho pessoal. E com o tempo isso iria mudar o rumo de toda a família.

Ele saiu muito jovem do Pará fugindo de uma tradição de fazendeiros de castanhais. Um dos netos dos fundadores da pequena cidade de Oriximiná trazia no sangue essa sede por descobrir novos espaços e avançar mundo afora. Abdicou de uma potencial riqueza para descobrir novos caminhos.

Quando descobrimos que ele estava doente o ar da casa, antes marcado pelas restrições financeiras, ficou pesado de um jeito novo. O rei estava frágil. Quem faria as comemorações, tiraria as fotos, coloriria as paredes da casa, mudaria os móveis, criaria histórias divertidas ou brigaria por nós?

O câncer linfático o levou embora em 3 anos, eu estudava para o vestibular em casa sozinho, acompanhei cada passo de sua internação. Me lembro de estar a sós com ele no hospital me dizendo que sentia dor nos pés. Notei que estavam secos, peguei um creme hidratante e passei tranquilamente. O alívio em seu rosto me trouxe profunda felicidade. Naquele momento eu me dei conta de que perderia meu pai e senti pela primeira vez o cheiro da morte no meu coração.

Me lembrei das inúmeras vezes que ele fazia carinho nos meus pés. Ele adorava que eu deitasse ao lado dele para me contar histórias e fazer cafuné. Eu retribuia tirando aquele algodãozinho de fiapos do umbigo dele (ele dizia que tinha uma plantação de algodão na barriga) ou tirando os longos pêlos de sua orelha. Era nosso momento de pai e filho, bem visceral.

Ele partiu no dia 22 de julho de 1999 deixando sua esposa e casal de filhos. Fiz 19 anos com profundo luto e torpor naquele ano, parecia tudo irreal. Toda a negação daquela caricatura negativa que construí deu lugar a imagem de um homem espirituoso, carinhoso, generoso, extremamente expansivo e simpático.

Muito da perda da timidez se deveu ao fato de assumir a porção de André que eu tinha em mim reprimida.

Nem sei como passei no vestibular naquele ano, mas graças ao seu seguro de vida pude pagar o começo da faculdade de psicologia. Não fui o fotógrafo e nem o jogador de futebol que ele sonhou que eu fosse. Mas ele sempre me chamava de Campeão. Não tive a chance de mostrar a ele o homem que me tornei, confesso que tenho curiosidade de saber o que ele diria.

Hoje eu choro com riso nos lábios sua ausência. Quando olho e coloco a mão na mancha de nascença que tenho na minha barriga (idêntica a de meu pai) posso sentir ele fazendo cócegas em minha alma de filho e dizendo “segue em frente campeão!”

Frente às adversidades e diante desse pedido tão simples, não me permito abater por muito tempo, afinal para alguém que mora no infinito do meu interior eu já venci!

Obrigado pai, muito obrigado!

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Outros links relacionados:

Eduardo Galeano, jornalista uruguaio

Caio Fernando Abreu, poeta gaúcho

Rubem Alves, escritor, psicanalista e contista

Drauzio Varella, médico, pesquisador e escritor

Contardo Calligaris, psicanalista e escritor

Gibran Khalil Gibran, poeta árabe

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão

David Deida, terapeuta especialista em dinâmicas sexuais

About the author

Sonhador nato, psicólogo provocador, apaixonado convicto, escritor de "Como se libertar do ex" e empresário. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas medita, faz dança de salão e lava pratos.

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  • Cleo Vieira

    Puxa Fred, tenho lido muitas coisas que vc escreve , mas essa em especial me emocionou a ponto de escorrer lágrimas em meu rosto. Senti em suas palavras a sua dor, e ao mesmo tempo a compreensão de que apesar de idealizarmos o nosso pai herói, em algum momento de nossas vidas descobrimos que são “apenas” seres humanos. Acho que esse é o momento em que compreendemos o quanto somos frágeis e limitados, e ambiguamente, o quanto podemos ser importantes na vida das pessoas, transmitindo a nossa alegria, sabedoria e sentimentos. São as nossas origens, nossas raízes que nos dão a condição necessária para nos tornarmos o que somos hoje, e aquilo que absorvemos do mundo ao nosso redor é que dá o toque da nossa constituição humana!

    • Fico feliz que tenha tocado você! Acho que a maior fonte de inspiração que um pai e uma mãe pode ser é viver da maneira mais inteira que conseguir…
      Gosto muito de seus comentários!
      bjs

  • Joirce

    Olá Fred
    Puxa, eu entro quase que todos dos dias para visitar seu blog e hoje me deparo com esse, digamos, desabafo, me levou em lágrimas. Tive pouco contato com o tio André, pelo que minha mãe falava era o queridinho da família, era o Andrezinho como era chamado carinhosamente.
    Me lembrei que em 1988 ou 89 não me recordo direito, ele foi até Brasília, ficou na casa do meu irmão Járdson, e nesse dia pude conversar com ele, falamos de tudo um pouco, e foi nesse dia que ouvi seu nome, o da Andrea, me falava de um jeito tao carinhoso de vocês, o meu garoto,expressando claramente o amor que sentia por vocês, lembro que nós ficamos horas conversando quase até o amanhecer, e ele só foi dormir porque tinha que viajar cedo no dia seguinte para São Paulo,eu fico imaginando como seria hoje, olha ai meu campeão, meu orgulho’, sem mais. O tio falava pelos cotovelos rsrsrs e me achou também, ai pronto.
    abraços Fred