Transtorno de Personalidade Borderline

* Por Frederico Mattos

Essa pessoa é 8 ou 80, muda como quem muda de roupa, instável como pólvora. Brinca que é bipolar (diagnóstico errado), mas nem ela sabe o que é. Sente um misto de raiva crônica e vazio indescritível e por isso pode ser a pessoa mais legal num dia e insuportável no outro dia – ou minuto. Está sempre reclamando de tudo e todos, parece que só ela tem razão e acha tudo insuportável e tedioso, exatamente por incapacidade de sentir prazer ou satisfação genuína.

Nos relacionamentos costuma ser um desastre, se entrega enlouquecidamente como se fosse sempre a sua única chance. Se dá como nunca, se atira de cabeça e sofre horrores por cada detalhe que sai do previsto ou expectativa. Seu desejo de que cada vírgula seja correspondida na mesma medida a faz calcular quantas vezes a pessoa retorna suas ligações ou mensagens no celular. Existe uma necessidade muito acentuada de se certificar do amor do outro perguntando e checando várias vezes o seu valor em qualquer ocasião. Sua intolerância à solidão é muito evidente e faz qualquer coisa, literalmente, para nunca ficar só. Costuma se envolver com pessoas passivas ou dominadoras demais e não é raro se envolver com pessoas problemáticas como ela.

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No campo sexual se esforça para ser muito intensa, afinal esse é um dos principais mecanismos para “prender” alguém. Em alguns casos faz práticas sexuais não convencionais (urina, fezes, sado-masoquistas) para evitar o abandono ou para sentir seu corpo ser levado às últimas consequências.

Melodrama é com ela e pode chegar num ponto em que esta tensão emocional  vira machucado de verdade. Pode se arranhar (automutilação), machucar e ter comportamentos autodestrutivos (como dirigir perigosamente, beber além da conta, se drogar, sexo de risco, compras compulsivas e até problemas alimentares). Também são frequentes as tentativas de suicídio, sempre acompanhadas de muita chantagem e birra.

Será difícil a tentativa de se descrever, afinal tudo dependerá de com quem ela convive no momento. Sua habilidade em mergulhar na vida de outra pessoa e se transformar numa cópia é muito grande. Quando ama é exagerado e quando odeia é insuportável. Aliás, consegue amar e desprezar a mesma pessoa em menos de vinte e quatro horas muitas vezes. Sua maneira de amar é dependente, grudenta, submissa e viscosa, pois costuma agir de forma controladora e chantagista.

Nas amizades tem uma tendência a ter ídolos nos quais se apega como um braço-direito meio puxa-saco e sente um misto de admiração e inveja. Esta inveja, traço constante de sua personalidade é corrosiva em muitos momentos e acaba por prejudicar grandes parcerias, porque chega uma hora em que fica um pouco desagradável notar como consegue ser competitiva até com aqueles que ama.

O ciúme descontrolado e sentimento de posse levam o portador do transtorno borderline a ter brigas homéricas com pessoas queridas por pura paranoia e irracionalidade. Mas alega que é seu descontrole que faz com que estrague tudo em sua vida, aliás sempre se lamenta que carreira, família e amor estão sempre uma bagunça. Mas nem se dá conta que os outros a olham com um misto de medo e dó, já que ela é um turbilhão de emoções. Sua vida é um mar de justificativas exatamente por que ela não consegue explicar quantas oportunidades lindas perdeu por falta de controle. Do mesmo jeito que pode ser incrível e intensa pode se afogar num mar de autopiedade e destrutividade.

Pode ser afetada ocasionalmente por sentimentos de não saber quem é, despersonalização, ou de não estar encaixada no mundo, desrealização, que muitas vezes são confundidos com quadros de pânico. Com alguma frequência recorre a formas de idolatria fervorosa (ídolos musicais, religiosos ou de partido político) como maneira de se enquadrar num mundo que considera caótico e confuso. Nessas horas segue as diretrizes que vêm dos superiores até que se sinta contrariada e abandone tudo até encontrar o próximo local para reiniciar um novo ciclo de fanatismo.

Na vida profissional pode ter dificuldade com as figuras de autoridade, pois do mesmo jeito que as admira tem profundos ressentimentos e dificuldade em se filiar às ideias vigentes. Sua instabilidade emocional acaba afetando seu julgamento sobre as pessoas já que tem sempre uma desconfiança em suas relações.

Quem sofre desse transtorno costuma vir de famílias conturbadas e normalmente são filhos de mães que agem dessa forma ou de maneira muito passiva e negligente. Não é raro ter sofrido abuso sexual na infância ou algum trauma marcante. Também não é incomum ter comportamentos criminosos e problemáticos, afinal suas paixões pessoais levadas ao extremo podem fazê-la cometer atos impulsivos e prejudiciais para os outros.

Essa é uma breve descrição dos portadores do Transtorno de Personalidade Borderline, com 2% de incidência na população mundial, dos quais 75% dos acometidos são mulheres. O diagnóstico é demorado e pode gerar muitas dúvidas. Para o portador e os familiares é muito trabalhoso e desgastante. Costuma ficar mais evidente no início da vida adulta e costuma se estabilizar por volta dos 35 ou 40 anos. Costuma ser cinco vezes mais frequente entre parentes biológicos de primeiro graus.

Na terapia

É extremamente resistente ao tratamento e oscila em presenças super-dedicadas ou descaso e tédio. O motivo da busca costuma ser por conta de angústias sem explicação, problemas amorosos ou instabilidade profissional. A relação com o terapeuta pode ser de muita dependência, motivo pelo qual muitos psicólogos desistem por ser uma presença sugadora e instável. Ao mesmo tempo que adora a terapia, odeia essa necessidade e por isso testa a capacidade do terapeuta ao limite. Eventualmente agride, questiona pagamento (principalmente aqueles de sessões às quais faltou sem aviso prévio) ou posturas profissionais.

Costuma achar que o terapeuta é insuficiente para seu desejo por atenção exclusiva, além do ciúme que sente dos outros pacientes. É um dos tratamentos que mais exige a concentração do profissional, pois é muito fácil a contratransfrência de impotência dele ser ativada.

Normalmente é recomendado um acompanhamento psiquiátrico a fim de dar conta de sintomas de outras transtornos associados, pois ao transtorno em si não se aplica nenhum tipo de medicação.

Comorbidades

Na maior parte das vezes vem acompanhado de outros transtornos que podem confundir um diagnóstico mais apressado ou superficial, que pode levar a pessoa a um tratamento ineficiente. Alguns exemplos:

a) Hipocondria e exagerada preocupação com a saúde. É comum o medo de enlouquecerem.

b) Problemas de fugas, ausências ou amnésias.

c) Descontrole dos impulsos.

d) Fobias variadas.

e) Sintomas histéricos, com dores no corpo.

f) Tendências paranóides.

g) Sintomas obsessivos-compulsivos.

h) Ansiedades e depressões decorrentes da personalidade instável.

No DSM 
Os critérios diagnósticos do DSM para o Transtorno de Personalidade Borderline (F60.31 – 301.83) são:

Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, como indicado por cinco (ou mais) dos seguintes critérios:
(1) esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado.
Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5
(2) um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização
(3) perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self
(4) impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, comer compulsivamente).
Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5
(5) recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante
(6) instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (por ex., episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias)
(7) sentimentos crônicos de vazio
(8) raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex., demonstrações freqüentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes)
(9) ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou severos sintomas dissociativos

Alerta Importante: Esse é um texto que pretende esclarecer um quadro psiquiátrico, um assunto sério onde não se deve fazer auto-diagnósticos. No entanto, serve de alerta a quem se identifica com essas características para procurar ajuda especializada de um médico psiquiatra e um psicólogo (tratamento conjunto). Se você conhece alguém que passa por isso vale ficar atento também.

 

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* Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor dos livros Relacionamento para leigos (série For Dummies)[clique], Como se libertar do ex [clique aqui para comprar] e Mães que amam demais. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva um bonsai, lava pratos e se aconchega nos braços do seu amor, Juliana. Oferece treinamentos online de “Como salvar seu relacionamento” e “Como decifrar pessoas” No Youtube seu canal é o SOBRE A VIDA [clique aqui] No twitter é @fredmattos e no instagram http://instagram.com/fredmattos – Frederico A. S. O. Mattos CRP 06/77094

About the author

Sonhador nato, psicólogo provocador, apaixonado convicto, escritor de "Como se libertar do ex" e empresário. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas medita, faz dança de salão e lava pratos.

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  • Lia Lia

    Depois de ler isso, decidi me suicidar. Muitíssimo obrigado!!! O border é um Ser desgraçado e odioso, de acordo com seu relato profissional. Profissional? Onde foi parar seu cuidado nesse texto?

    • Kaloryne Kaloryne

      Senti a mesma coisa, Lia!
      Parece que somos o refugo da sociedade.