Cultura do estupro

Como a cultura do estupro está mais enraizada do que imaginamos.

Fiz a seguinte postagem na minha página pessoal do Facebook:

A tragédia que ocorreu com a garota de 16 anos (que infelizmente poderia ser qualquer das mulheres que conhecemos e amamos) levanta tantas questões que não me senti à altura de produzir algo tão bem alinhado quanto a Marcela Campos [link].

Alguns pontos que me sinto confortável para destacar:

-Todo homem, tenha estuprado, forçado a barra, constrangido, fiu-fiu na rua, sido negligente sobre qualquer ofensa às mulheres (de qualquer nível de gravidade), conivente com brincadeiras machistas, alimenta a cultura do estupro (de que homens podem se intrometer sem consentimento sobre a vontade e o corpo da mulher). Portanto, meu caro, não diga que você não tem nada em comum com os 33 caras, porque o silêncio é um tipo de agressão quando é preciso posicionamento.

-Gostamos de terceirizar a responsabilidade por uma mudança gritando sobre leis, punição, castração química, ou seja, o Estado fazendo supostamente (esses meios não resolvem a questão de base) o que nos cabe. Isso NÃO resolve a questão.

-Como não faço parte de grupos de homens no WhatsApp sou pouco familiarizado com certas práticas. Mas o que sei é que os homens parecem se reunir virtualmente para alimentar uma imagem de objeto das mulheres, separando elas em “mulheres nobres que digo que respeito” versus “mulheres desprezíveis só porque tem a coragem de expressar sua sexualidade como bem entendem”. Sim, meu caro, você alimenta o machismo e a cultura do estupro. “Mas eu não estuprei ninguém, Fred!”. Mas se você alimenta o tipo de mentalidade que faz parecer normal uma coisa bizarra que é expor a mulher como carne de açougue (coisa que os 33 caras se alegraram de divulgar, na mentalidade deles era superOK fazer isso) então você alimenta a cultura do estupro. Fora interromper uma mulher quando ela está falando, achar que são menos capazes de certas coisas e centenas de comportamentos cotidianos.

– Se você acha que existe “isso é coisa de homem”, não, isso é coisa de uma pessoa que usa os privilégios de seu gênero (de não ser censurado por fazer coisas estúpidas e impulsivas) para se permitir continuar sendo egoísta, imaturo e invasivo.
Agora leia o texto, vai clarear muitos pontos importantes. Estamos todos nesse barco, gostemos ou não.

Depois segui explicando alguns pontos que ficaram mais obscuros conforme houve a interação com outras pessoas que traziam questionamentos e contrapontos.

Cultura e indivíduo são duas esferas do mesmo problema, eu entendo cultura como sinônimo de mentalidade coletiva. Não sei se penso do mesmo modo quanto a dizer que a cultura desculpa a má ação, para mim endossa que uma pessoa se escondeu atrás de uma justificativa socialmente aceita (o que é bizarro e nos implica). Na bolha de concepções dele existe uma que o faz pensar que é ok isso, pois se uma lei aperta sem a mentalidade mudar ela é uma lei morta. Sujeito e cultura estão ligados indissociavelmente, um alimenta o outro, do modo como entendo um não anula o outro ou são excludentes,

A cultura do estupro não é algo do qual as pessoas se orgulham (ainda que isso seja velado), como se a discussão (e denuncia) dela fosse uma apologia, pelo contrário é uma evidência/denúncia de algo silencioso na nossa sociedade é que precisa ser combatido.

“Cultura (mentalidade) do estupro (culpabilizar a vítima, a invasão do corpo da mulher em diferentes graus, o machismo sistêmico que diz que as mulheres devem se calar, a palavra estupro aqui representado não como categoria jurídica mas como símbolo de invasão dos homens à dignidade feminina, o sentido da palavra cultura aqui não é de Cultura com C maiúsculo como sinônimo de erudição ou algo que as pessoas gostam de ter) como algo inexistente. Podemos pensar diferente quanto ao fato de como agir em relação à isso, mas não em dizer que isso não existe. Quando eu digo cultura da malandragem (do levar vantagem em tudo) tem o mesmo significado de mentalidade.

Cultura = mentalidade. Portanto existe uma mentalidade (cultura) que fomenta em sua raiz o que em grau extremo se expressa como a ação que legalmente é chamada de crime. Antes de categoria jurídica o estupro é uma ação de um homem que investe sexualmente contra uma mulher sem o consentimento dela é isso inclui fiu-fiu na rua, “ela é vagabunda então não preciso perguntar ou dar explicações”, nude de garotas em grupo de WhatsApp. É preciso deixar claro, que não estou falando do estupro apenas, mas da cultura (que compete a todos) que alimenta o que lá na ponta extrema cria o estupro e por isso nos compete falar. Justiça não é vingança, não é arruaça, não é motim.

A cultura cria um viés individual, como se fosse uma via que o deixa moralmente anestesiado, o meio endossa. É o que acontece num motim, por exemplo, individualmente a pessoa não chutaria a cabeça de alguém no chão, mas em grupo ela se sente legitimada. É uma escolha individual mas usando como baliza um consentimento, como ocorreu no Holocausto.

Mães também são influenciadas pelo machismo, pela cultura de que homem tem liberdade “poética” de ser imbecil. Então dizer que alguém foi educado por uma mulher não explica nada, apenas endossa o que estamos falando aqui. Quando as pessoas educam os meninos para fazerem o que quiserem, passam pano, fingem não ver, negligenciam ações, palavras e intenções abertamente machistas isso é uma cidade que incentiva lá na ponta extrema o estupro. Se o esclarecimento do consentimento/não-consentimento por parte da mulher não for trazido à tona é a cultura do estupro que surge com força.

Existem dois tipos de violência, a que é aquela que abertamente é vista como violência. E outra violência que é conceitual. Por exemplo, quando um homem negro em 1800 diz que gosta de ser escravo (e seu sinhozinho é um bom homem) isso é uma violência conceitual, pois ainda que a vítima não entenda que está sendo alvo de abuso ela está. Numa cultura de favela que uma mulher entenda (dentro daquela bolha específica) que transar com 1 milhão de homens é coisa de mulher forte e das “quebrada”, isso continua sendo uma violência. Quando uma mulher retira a queixa do marido que a espancou isso continua sendo uma violência. A violência está muita além do que apenas a vítima alega como violência. É um conceito tão sutil que faz pessoas como nós, que nos entendemos esclarecidos, chegar a achar que alguém em condições muito duvidosas de livre-arbítrio seria capaz de deliberar uma escolha que preserve o bem-estar dela ou não. Ali naquele contexto o estupro coletivo pode estar tão enraizado que uma garota para se socializar pode se submeter àquilo achando que está escolhendo, quando na verdade ela está se inserindo numa violência estrutural.

Pense numa fraternidade americana ou em aspirantes à uma posição militar qualquer. Há um ritual de passagem, naquele contexto provavelmente havia algum (não quis me aprofundar nos detalhes em particular) então uma garota, para ser introduzida e aceita numa comunidade que legitima sexo grupal com agressão então ela pode “pedir” algo, ainda que seja agressivo à ela. É uma violência estrutural tão enraizada que ela mal entende que está submetida à uma loucura. Pode parecer bizarro, mas em algumas subculturas isso soa razoável.

Quando se fala de cultura do estupro não é afirmar que ela é boa. Você entendeu que o conceito da palavra cultura (Do estupro) que está sendo usado aqui não tem nada a ver com Cultura (coisa boa que deve ser incentivada)? Insisto a palavra cultura aqui está como sinônimo de mentalidade e como tão deve ser evidenciada, não para exalta-la, mas para combatê-la. Nesse sentido cultura do estupro é uma constatação nosologica, algo que os estudiosos veem infiltrado sob um discurso machista que na pratica cria a naturalização do homem como superior à mulher e portanto podendo cruzar a linha da vontade dela, e no grau extremo do estupro.

A machista alimenta essa mentalidade (isso não é novo) e sim é um potencial invasor da intimidade feminina (estupro em diferentes escalas de gravidade da palavra). Se estupro for apenas a penetração vaginal antecedida por coerção e violência, então o fiu-fiu na rua, o cara que transa com a amiga meio bebada (quase apagando), o nude da colega compartilhado no WhatsApp, não são estupros. Mas se estupro, enquanto conceito (não categoria jurídica, por favor entenda essa distinção) for a invasão do direito da mulher pelo próprio corpo e vontade, então todos esses comportamentos que citei são uma escalada do estupro, o assédio é uma expressão da cultura (mentalidade) do estupro (desrespeito do consentimento da mulher).

São camadas de ações em diferentes níveis. Destaquei uma delas, aquela que envolve todo mundo e repercute de outra forma mais sutil com benefícios para muitas gerações. Não enfatizei a lei (que é sempre historicamente datada), pois isso abre outra discussão gigante de como, quando, quem, quanto tempo. Enfim. Minha fala é para o cidadão comum que acha que a violência só acontece na mão de quem comete crime. Não vejo uma lei que não surja de uma constatação coletiva (ainda que inicialmente parcial) de mudança de perspectiva.

Conscientizar a atual geração para que as futuras vejam esse passado que ainda é nosso presente como um sonho ruim. Que elas nem tenham dúvida do que é absurdo ou não. É assim que com a escravidão (não completamente rebelada). As pessoas confundem ser vítima (e declarar isso) com vitimização. Existe um preconceito que as pessoas carregam de que se mostrar frágeis ou acuadas por alguma coisa é errado. Parecer forte seria algo admirável.

As mulheres poderiam combater mil formas de violência, mas como expliquei aqui nessa postagem inúmeras vezes, um pouco em vão, é que muitas mulheres estão muito contaminadas pela visão machista, não é culpa delas, não vemos-lutamos contra o que não vemos. Acho que ser um objeto de prazer não é um problema, o sexo consentido é uma forma de prazer onde somos objetos e objetificadores em alguma medida, e cada pessoa tem um fetiche, uns é papai e mamãe e outros é o de serem gravados. Uma coisa porém é a garota se excitar sendo gravada pelo parceiro e outra é ele deliberar compartilhar isso com os amigos. Isso é parte da cultura do estupro, de que mulheres são propriedade dos homens e o corpo delas (e as imagens produzidas) cabem à eles definir o destino. Então o nosso julgamento pode confundir moral (que nós adotamos) com o moralismo (quando é um tipo de desejo que não adotamos e é legítimo e consentido de quem pratica). Mas consentimento como eu disse também passa pelo víes do machismo, então se uma garota se dispõe a fazer coisas que são agressivas à integridade física e psicológica dela só para ser aceita por um homem ou grupo de homens (transar sem preservativo e pôr sua saúde em risco) é parte de uma violência simbólica e sistêmica.

Mais vídeos e textos de interesse:

Vídeo bem didático

Clique aquiO que as mulheres fazem todo o dia

Clique aqui Precisamos falar de como você silencia as mulheres a seu redor

Clique aqui 9 coisas que você faz que perpetuam a cultura do estupro

Outro ponto sobre o que é ser um estuprador em potencial

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* Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor dos livros Relacionamento para leigos (série For Dummies)[clique], Como se libertar do ex [clique aqui para comprar] e Mães que amam demais. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva um bonsai, lava pratos e se aconchega nos braços do seu amor, Juliana.

Treinamentos online de “Como salvar seu relacionamento” e “Como decifrar pessoas”

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Frederico A. S. O. Mattos CRP 06/77094

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  • Excelente texto o recomendado e seus acréscimos foram mais que pertinentes.
    Gratidão pelas dicas de vídeos!

  • deborah

    Excelente. Gostaria também de apontar a necessidade que às vezes temos de pensar que aquilo não aconteceria conosco porque nos comportamos de uma determinada forma, ou pertencemos a um grupo ou religião e portanto, estamos protegidas.
    Isso não é verdade. Estamos sujeitas à violência em qualquer lugar, mas talvez seja mais confortável acreditar que dispomos de uma proteção especial ao invés de lutar contra ausência de segurança que atinge a todas (não em níveis iguais, obviamente).
    Isso me lembra um filme, que pessoas possuem clones para servirem de doadores de órgãos perfeitamente compatíveis no futuro, chama-se “Não me abandone jamais”. O interessante é como os protagonistas (clones) se prendem a uma hipótese de se salvar ao invés de se indignar, se rebelar.
    É uma boa reflexão sobre como fazemos isso em diversos âmbitos da nossa vida. Procuramos aumentar nossa proteção, ao invés de criar/aumentar a segurança. Sempre procuramos paliativos, ao invés de resolver o problema.