Por que surgem tantos problemas em empresas familiares?

* Por Juliana Baron

Às vezes, fico impressionada com a quantidade de histórias que envolvem problemas em empresas familiares. Não sei se é porque como eu vivi esse complexo paradoxo entre família e trabalho, acabo dando mais atenção ao assunto ou se é porque ele é comum mesmo. Filhos em sofrimento psíquico obrigados a trabalhar com o que não gostam. Pais angustiados e frustrados porque não conseguem controlar o desejo dos seus filhos. Irmãos, em brigas horrorosas por causa de dinheiro. Famílias arrasadas, mesmo que silenciosamente, porque não conseguem entender como tanto amor envolvido não dá conta de ajeitar essas situações.

Como sempre, trago um pouco da minha experiência para a reflexão porque a minha história de vida aconteceu entrelaçada à história da empresa da minha família. Juntas, nós duas crescemos até o dia em que nossos caminhos se cruzaram.

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Comecei a trabalhar lá ainda no segundo grau, como mensageira, aquela que faz o banco e paga algumas contas. Depois fui secretária, trabalhei na parte financeira, comercial e de relacionamento com os clientes. Ao longo dos anos, pulei de setor e setor, na busca por me encaixar em algum contexto, mas nunca consegui e isso sempre me causou muito sofrimento psíquico.
Só para deixar claro que não vou falar sobre disputas por poder em empresas familiares porque como minha família é pequena, não temos problemas sérios de relacionamento dentro da empresa. O ponto que trago para reflexão é o fato de eu não ter encontrado o meu lugar dentro dos espaços disponíveis e o quanto eu sei que essa é uma constatação dolorosa. Sei que existem casos de sucesso e pessoas que amam trabalhar nos negócios da família, mas não foi o meu caso. Principalmente depois que descobri através do meu processo de coaching que um dos meus principais valores na vida é a harmonia familiar, ou seja, como sou muito ligada à minha família, toda a insatisfação que eu sentia e a frustração deles ao presenciarem a minha desmotivação, acabava se refletindo na nossa relação.

Lembro-me de ter choros, a princípio desmotivados, que aconteciam do nada, numa terça feira à tarde. Aliás, acredito muito que nossas grandes questões sejam essas que aparecem “de repente”. Tudo estava (aparentemente) bem, mas eu só sentia vontade de chorar o meu sofrimento. Lembro também de acreditar que era uma pessoa ingrata, afinal, tinha tudo de melhor na vida: uma família presente, casa, carro, saúde e conforto. Como poderia sofrer com tudo isso?

Depois que consegui dar nome aos meus sentimentos e identificar o que me fazia tão infeliz, minha vida mudou e por conta disso, um dos meus maiores objetivos hoje dentro da Psicologia é trabalhar com famílias, com empresas ou não, e suas possíveis dinâmicas disfuncionais e desordenadas. Fico extasiada quando estudo qualquer material da área sistêmica porque se tem uma verdade nessa vida é a de que todos, sem exceção, fazem parte de um sistema familiar. E apesar dessa afirmação soar simples e óbvia, penso que os maiores problemas da humanidade envolvem questões familiares mal resolvidas, como segredos, assuntos velados e papéis trocados. Quantas pessoas que você conhece, por exemplo (se não você mesmo), que não tem contato com os pais ou que não conversam com os irmãos? E o pior é que por mais que se negue, toda essa relação ruim tem total reflexo nos outros aspectos da vida. Percebe o quanto pode ser complicada essa dinâmica? Imagina então quando esse sistema complexo também se mistura às questões profissionais.

Hoje acredito que a minha questão está bem resolvida. Demorei mais de dez anos até conseguir deixar claro para mim mesma e para os outros o quanto tudo aquilo me fazia mal. Somente com muitas sessões de terapia, um certo sofrimento e milhares de horas de reflexão, entendi que eu poderia ser uma herdeira, mas não precisava, necessariamente, ser uma sucessora. Que eu tinha o meu lugar no meu sistema familiar e que eu não precisava suceder nos negócios para ser digna dele. Que eu podia fazer outro coisa se aquilo fosse me deixar feliz.

Como eu disse antes, sou apaixonada por esse assunto e cada frase que escrevi, daria um texto inteiro por si só. Quis trazer essa reflexão porque conversando com uma amiga que está passando pela mesma situação, relembrei a dor e a angústia que é viver esse drama e quis deixar essa mensagem de compreensão do quanto é árdua, mas possível, a tarefa de sair ileso desse emaranhado. Basta que você procure ajuda (terapia, coaching, leituras, aconselhamentos) e esteja (muito) disposto a batalhar pelos seus desejos e objetivos.

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Baron* Juliana Baron Pinheiro: casada, mãe, mulher, filha, irmã, amiga, formada em Direito, aspirante à escritora, blogueira e finalmente, estudante de Psicologia. Descobriu no ano passado, com psicólogos e um processo revelador de coaching, que viveu sua vida inteira num cochilo psíquico. Iniciou uma graduação para compartilhar com os outros a maravilha da autodescoberta e que acabamos buscando aquilo que já somos. Lançou seu blog “Psicologando – Vamos refletir?” (www.blogpsicologando.com), com textos que retratam comportamentos e sua caminhada no curso de Psicologia.

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