Pare de desejar um relacionamento para a vida toda

* Por Frederico Mattos, psicólogo

Minha avó ficou casada com meu avô dos 20 aos 82, 62 anos casados. No entanto minha avó não teve acesso aos estudos, não se formou e cuidados dos afazeres do lar.

Parece bonito e era numa época em que todo mundo pensava assim é não tinha muita opção.
Hoje é diferente, homens e mulheres podem escolher seus parceiros amorosos com mais tempo, calma e critério. Ainda que muitos não usem esses benefícios no começo do relacionamento eles vão sendo forçados pelo tempo e as comparações a olharem com mais atenção o comportamento da pessoa amada.
Há setenta anos uma pessoa vivia uma média de sessenta anos dos quais raramente mudava de emprego, de empresa e de bairro. Uma vida estava circunscrita às regras do jogo de uma pequena comunidade sitiada por políticos, igreja e vizinhança. O seu patrão era o seu vizinho e as notícias corriam lentamente entre um acontecimento a boca do povo.

A velocidade da informação e a mobilidade social e financeira gerou impactos irreversíveis na maneira que as pessoas se relacionam. O casamento sofreu os efeitos disso, é a há quem fique nostálgico e quem olhe sem afetação para isso.
Quando algum casal sobrevive ao tempo, mais de vinte anos, eu sempre observo as personalidades em questão para avaliar se realmente estão juntos ou apenas coabitando. Não é impossível coabitar com alguém, as contas são pagas, os filhos criados, uma viagem ou outra para relembrar bons momentos. Desconfio se há parceria e cumplicidade real ou apenas um protocolo de funcionalidades operacionais. Isso é bem importante num relacionamento, muito importante aliás, mas não é o que configura um vínculo amoroso que sobrevive ao tempo com qualidade.

O crivo não é se eles transam muito também, mas se se alegram e admiram mutuamente, se tomam o outro como um projeto de felicidade compartilhada.
Nesse sentido, parece não haver um treinamento coletivo para essa empreitada, as pessoas e seus respectivos relacionamentos mal aguentar aguardar na sala de um dentista, quem dirá enfrentar os contratempos de mais de dez anos juntos.
Sendo bem pé no chão talvez seja preciso alterar um pouco a expectativa de vida de um relacionamento amoroso, pois na medida que a medicina garante mais anos de vida para as pessoas elas se tornam mais intolerantes com suas escolhas.

A sensação de que se está perdendo tempo diante de tantas opções incrivelmente (e iludamente) melhores parece colocar uma pressão inconsciente em toda pessoa.
Isso parece uma crítica ao novo modelo, mas talvez seja apenas uma fase de readequação coletiva a ser olhada com mais atenção.
Quinze anos de relacionamento talvez já seja um relacionamento idoso e existe uma razão para isso. Uma pessoa que se uniu a outra com vinte e quatro anos e agora tem trinta e nove anos mudou absurdamente. Ela viajou para outros países, conheceu novas culturas, leu muitos livros, viu muitos filmes, leu milhares de notícia, acompanhou revoluções tecnológicas constantes e foi impactada por benéficos médicos. A menos que ela e a pessoa amada tenham ficado hibernando elas tiveram um desafio gigantesco: alinhar seus rumos e desejos pessoais e profissionais. Não parece tão simples.

Algumas pessoas entendem que bonito mesmo seria se os casais amarrassem seus pés e nunca caminhassem numa direção muito diferente do parceiro. O problema é que quando você coloca um grau a esquerda e o parceiro um grau a direita, nos quinze anos da atualidade (e não dos nossos avós) essas duas pessoas estão em lugares intelectuais e emocionais absolutamente diferentes. Seria doentio até se fosse diferente disso, é na prática é o que acontece com os casamentos contemporâneos, as pessoas se mutilam emocionalmente para acorrentar o amor.

“Mas Fred, se ninguém cede nada e pensa só em si ninguém mas vai ficar junto nunca”.
Esse questionamento surge daquela referência dos nossos avós, não cabe aos dias atuais. Eles ficavam juntos, não por amor ou escolha, mas por costume e conformação.
“Mas Fred, eu conheço um casal que tem vivido bem durante muitos anos”. Sim, existem esses sim, eles alinharam suas vidas e provavelmente não tiveram que fazem grandes rearranjos para seguir com valores e estilos de vida alinhados.

Mas qual a porcentagem disso realisticamente?
Um relacionamento que dure dez anos, na perspectiva atual, foi super produtivo, benéfico e alavancador de felicidade. Cumpriu um papel importante e foi agradável. Os rumos mudaram e tudo bem, não é preciso um atestado de fracasso pela aparente pouca longevidade.

O critério tempo pode não ser muito útil para avaliar um relacionamento que trouxe crescimento para os dois lados. A balança precisa estar afiada para não descambar num utilitarismo amoroso, mas usar o critério de longevidade também pode não ser mais tão fidedigno.

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* Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor dos livros Relacionamento para leigos (série For Dummies)[clique], Como se libertar do ex [clique aqui] e Mães que amam (demais livros e cursos [aqui]). Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva um bonsai, lava pratos e se aconchega nos braços do seu amor, Juliana.

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Frederico A. S. O. Mattos CRP 06/77094

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