Dietas e o machismo

*Por Josi Bessa, nutrição

As dietas restritivas*, tanto em calorias quanto em alguns alimentos específicos estão distribuídas aos montes por aí. Mas não é de hoje que elas existem, mas vem desde da Grécia clássica.

Qual a função da dieta restritiva?

Proporcionar uma alimentação saudável, ué! Será?

De modo geral as dietas são destinadas às mulheres com o argumento que é preciso emagrecer ou melhorar alguma coisa no corpo.

Quais são os efeitos de uma dieta restritiva?
– Aumento da obsessão por comida
– Desconexão com os sinais internos de fome e saciedade
– Instabilidade emocional
– Culpa
– Baixa autoestima

Com esses 5 elementos na vida de uma mulher você já pode imaginar a tristeza, o sentimento de inferioridade, competição com outras mulheres e compulsão alimentar se fazendo presente.

Nessa altura da vida a mulher está muito preocupada com o corpo e a comida ao ponto de pensar em práticas que vão contra fisiologia do nosso corpo, por exemplo, prática de vômito autoinduzidos.

A mentalidade da dieta (refere-se ao fato de todo momento precisarmos fazer dieta, pois segunda nossa sociedade sempre estamos comendo de forma errada) é uma maneira de controle social e posteriormente mal-estar.

Percebe alguma relação entre controle e o machismo?

Sim! A dieta restritiva surge como ferramenta do machismo para causar instabilidade emocional e baixa autoestima nas mulheres.

Bingo! Estamos a todo momento insatisfeitas e infelizes com nossa maneira de comer, de praticar exercício ou forma corporal. Nunca está bom, mesmo que não exista algo de errado realmente, mas a insatisfação e infelicidade faz parte de todo o processo de fazer dieta.

“A mulher, quando se sente, feia e infeliz, fica acanhada; uma parte delas não se sobressai, nem sequer reivindicam direitos, a maioria fica em casa ou se envergonha de ocupar os espaços públicos. Mesmo quando os ocupam, retraem-se na luta por mais direitos, sentem que fazem alguma coisa errada ou que lhes falta.”
Esse trecho pertence ao livro Nutrição Comportamental e está no capitulo “Como a subjetividade influencia o comportamento alimentar?”

Na prática este trecho quer dizer que enquanto uma mulher está sendo estuprada, apanhando do namorado, sofrendo violência psicológica ou os homens estão decidindo no Congresso o que devemos ou não fazer com nosso corpo, nós estamos machucadas demais para reagir e ajudar outra mulher, pois o padrão de beleza magérrimo não permite que nos sintamos bem sendo quem somos.

E nessa insatisfação crônica não conseguimos direcionar nossa energia para lutar por igualdade de gênero. Continuamos ganhando menos, com medo de sair a noite, sofrendo todo tipo de violência e almejando sempre a aprovação dos homens sobre nosso comportamento e forma corporal para ter um pouco de felicidade, mesmo que momentânea.

As dietas restritivas não nos traz nada de bom nem quando vem disfarçada pelo discurso de ser saudável.

Ela nos leva para a infelicidade. A autora Naomi Wolf no seu livro ‘O mito da beleza’ diz que “fazer dieta é o maior sedativo político das mulheres”.

Sedadas o mundo acontece da maneira que sociedade machista gosta, ou seja, sem a presença e a voz feminina.

Amar-se e estabelecer uma boa relação com comida é um ato revolucionário que toda mulher pode fazer.

Beijos e até a próxima!

*Neste texto, dieta restritiva se refere as dietas sem comprovação científica ou divulgadas na grande mídia, como revista, que apenas priorizam o emagrecimento sem considerar a saúde.

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*Joseane Bessa – Sonhadora, estudante de nutrição e determinada. Negra, crespa, paulistana com coração de baiana, fascinada com a interação da psicologia e da nutrição. Ama comer e é apaixonada por bolo de prestígio. Escreve no seu blog www.gostoleve.com

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  • Bruna Mallmann

    “Sim! A dieta restritiva surge como ferramenta do machismo para causar instabilidade emocional e baixa autoestima nas mulheres” hahah boa essa piada

  • Jun

    Sou feminista assumida, mas culpar o machismo até pelas dietas doidas que as pessoas fazem (homens também estão entrando nessa) é um pouco de exagero. O problema com a autoimagem vai muito além de fatores para agradar o homem. Somos vítimas de muita coisa, mas não podemos nos vitimizar com coisas que estão no nosso alcance mudar, como a autoimagem. Nesse caso, invés de falar sobre o machismo imposto nas imagens sexualizadas das propagandas, é fazer as mulheres entenderem que sua autoestima vai muito além de se sentir atraente e não continuar a bater a tecla da autoimagem como fator decisivo da autoestima.